Uma viagem por diversos períodos da história regional, percorrendo caminhos que vão de ferrovias, picadas e antigas rotas tropeiras, com pausas garantidas para o chimarrão e boas conversas sobre política, migrações, povos indígenas amazônicos, movimentos sociais, literatura e outras temáticas transfronteiriças do Sul do Brasil.
O mais inspirador dessa jornada é que para embarcar na expedição, não é preciso sair de casa, basta apreciar a leitura e ter interesse pela história regional.
A plataforma de acesso é o livro Territórios, Memórias e Resistências no Sul do Brasil, que será apresentado oficialmente durante o XXI Encontro Estadual de História da ANPUH-SC, realizado entre os dias 18 e 21 de agosto, no Campus da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), em Chapecó.
A jornada historiográfica, organizada por Antonio Marcos Myskiw, Ernoi Luiz Matielo e Humberto José da Rocha, reúne 18 pesquisadores em 13 artigos distribuídos ao longo de 310 páginas, oferecendo um amplo panorama sobre os acontecimentos históricos regionais.
A coletânea reúne artigos que, em sua maioria, resultam de pesquisas desenvolvidas por mestrandos e doutorandos do PPGH/UFFS, muitas delas em parceria com seus orientadores e aprimoradas durante as disciplinas do programa. A obra integra ainda trabalhos apresentados em simpósios temáticos e outros espaços de divulgação científica.
A obra editada pela Acervus Editora e pela Virtual Pictures, já está disponível para download gratuito no formato e-book, no endereço: https://www.acervuseditora.com.br/nossasobras/territorios-memorias-e-resistencias-no-sul-do-brasil/.
A apresentação oficial acontece na quarta-feira (19), durante o espaço reservado para o lançamento de livros e atividades culturais, com início previsto para as 17h30, no terraço da Biblioteca (Bloco da Biblioteca), sala 105, e contará com a presença dos autores.
Segundo os organizadores, o acesso ao evento é gratuito e aberto ao público, reforçando o papel da universidade na valorização da história regional. A obra reafirma a pesquisa acadêmica como ferramenta de preservação da memória, fortalecimento da cidadania e promoção do desenvolvimento social e cultural.
Conheça os artigos que integram a obra:
No artigo “Cemitério Redondo: patrimônio caboclo nos caminhos das tropas nos altos catarinenses”, Ernoi Luiz Matielo e Humberto José da Rocha investigam o antigo cemitério localizado em Piratuba (SC) como um importante patrimônio cultural da comunidade cabocla. Com base em pesquisa bibliográfica, documentos históricos e relatos orais, os autores resgatam a memória e o protagonismo dos moradores da região entre 1897 e 2007. O estudo desconstrói lendas sobre a origem do local, relacionando sua formação às antigas rotas de tropeirismo e colonização, e aponta seu potencial como espaço de preservação da memória e de desenvolvimento do necroturismo cultural.
No artigo “A Exploração ervateira na fronteira argentino-brasileira em Misiones (1876-1910)”, Bruno Aranha investiga os impactos da exploração da erva-mate na fronteira entre Argentina e Brasil no fim do século XIX e início do XX. Com base em documentos oficiais, relatórios técnicos e ampla revisão historiográfica, o autor demonstra que a fragilidade da fiscalização estatal favoreceu a concentração fundiária, o contrabando, a evasão fiscal e a superexploração da mão de obra. O estudo revela como interesses privados se sobrepunham à atuação do Estado, transformando a região em uma fronteira marcada por intensos conflitos econômicos e territoriais.
No artigo “Caboclos e colonos no Faxina do Tigre: rupturas e transformações na paisagem (décadas de 1910 a 1950)”, Angela Regina da Silva Sulsbach e Marlon Brandt analisam os impactos da colonização particular sobre a população cabocla no atual município de Guatambu (SC). Com base em mapas, documentos históricos, legislação e relatos orais, os autores mostram que a expansão da propriedade privada provocou a expropriação dos posseiros e profundas mudanças na paisagem regional. O estudo evidencia que a atuação das companhias colonizadoras e do poder público contribuiu para a desterritorialização dos caboclos e sua inserção como mão de obra assalariada.
No artigo “Monarquia e República: leis brasileiras que ampliaram a exclusão dos povos do contestado”, Jucemar Antonio Souza da Luz analisa como a legislação brasileira contribuiu para a marginalização de caboclos, indígenas e negros na região do Contestado. A partir da análise de leis e decretos da Monarquia e da República, o autor demonstra que o ordenamento jurídico favoreceu a concentração fundiária e a colonização, rompendo a relação histórica dessas populações com a terra. O estudo conclui que essas normas transformaram antigos ocupantes em “intrusos” em seus próprios territórios, ampliando a exclusão social e étnica.
No artigo “Espaço rural, ruralidade e a transformação da paisagem no núcleo colonial de Nova Teutônia (1920-1960)”, Maicoln Viott Benetti analisa os impactos da imigração alemã na reconfiguração do espaço rural em Nova Teutônia, atual município de Seara (SC). Com base em documentos históricos, fotografias e mapas, o autor demonstra que a convivência inicial entre imigrantes, indígenas e caboclos deu lugar à expansão de um modelo capitalista de ocupação do território. O estudo evidencia que esse processo transformou a paisagem e fortaleceu novas identidades rurais, ao mesmo tempo em que contribuiu para a marginalização das populações originárias e caboclas.
No artigo “Entre a liberdade e a exclusão: o caso Jeronymo e a experiência negra no pós-abolição em Palmas-PR”, Carlos Eduardo Cardoso investiga a persistência do racismo e da exclusão da população negra após a abolição da escravidão. Com base em processos judiciais, inquéritos policiais e documentos oficiais, o autor reconstrói a história de Jeronymo, um idoso negro ex-escravizado assassinado no início do século XX. O estudo revela que práticas discriminatórias e estruturas de poder herdadas do período escravista continuaram marcando a vida da população negra mesmo durante a República.
No artigo “Capitalismo e fronteira: uma proposta de estudo sobre a precarização do trabalho (i)migrante no Brasil (2019-2024)”, Edinei Marcos Grison analisa como as fronteiras brasileiras contribuem para a precarização das condições de trabalho de migrantes e imigrantes. Com base em referenciais da economia política, estudos sobre migração e indicadores socioeconômicos, o autor demonstra que a vulnerabilidade jurídica e social desses trabalhadores é utilizada como mecanismo de exploração no capitalismo contemporâneo. O estudo conclui que as fronteiras funcionam como instrumentos de controle que favorecem a flexibilização dos direitos trabalhistas e a acumulação de capital.
No artigo “Marcas e migrantes: uma leitura arqueológica da paisagem do garimpo na Amazônia Setentrional – Território de Roraima (1960-1980)”, Rosângela Maria Bezerra da Costa investiga como o garimpo e os fluxos migratórios transformaram a paisagem de Roraima entre as décadas de 1960 e 1980. Com base em documentos oficiais, mapas, legislações e manifestações culturais, a autora demonstra que a atividade garimpeira redefiniu o território e construiu novas identidades regionais. O estudo conclui que o garimpo deixou marcas permanentes na paisagem e na memória coletiva, apesar dos impactos sociais e ambientais provocados pela exploração mineral.
No artigo “Interdisciplinaridade e a interlocução com a imigração e as relações de trabalho em Capinzal-SC”, Samara Leorato analisa a inserção de imigrantes africanos no mercado de trabalho de Capinzal (SC) a partir de uma abordagem interdisciplinar. Com base em dados do IBGE, reportagens e referências das ciências sociais, a autora demonstra que compreender o fenômeno exige a integração entre diferentes áreas do conhecimento. O estudo aponta que, apesar da atração econômica exercida por Santa Catarina, os imigrantes ainda enfrentam precarização nas relações de trabalho e dificuldades de integração sociocultural.
No artigo “Entre desafios e mobilizações: as caravanas de Lula pelo Brasil (1993 a 2018)”, Cesar Capitânio analisa o papel das Caravanas da Cidadania como instrumento de mobilização popular e articulação política lideradas por Luiz Inácio Lula da Silva. Com base em reportagens, obras acadêmicas e publicações sindicais, o autor mostra que as viagens contribuíram para o diagnóstico de demandas sociais e a formulação de políticas públicas. O estudo conclui que, enquanto as caravanas dos anos 1990 fortaleceram propostas de combate à pobreza, a edição de 2018 ocorreu em meio à intensa polarização política e a episódios de protestos e confrontos.
No artigo “A mística do MST e a música de Cenair Maicá no Instituto Educar”, Miguelângelo Corteze, Antonio Marcos Myskiw e João Carlos Tedesco investigam a influência da obra de Cenair Maicá na formação política e cultural dos movimentos camponeses ligados ao MST. Com base em entrevistas, registros históricos inéditos e uma prática pedagógica com estudantes de Agronomia, os autores demonstram que a música missioneira fortaleceu a consciência crítica e a mobilização pela luta pela terra. O estudo destaca o papel da produção artística como instrumento de denúncia social e de resistência às estruturas do latifúndio.
No artigo “A escola como rugosidade: primeira casa familiar de Santa Catarina em Quilombo”, Alex Ruan Vedovatto Kucmanski analisa a trajetória da primeira Casa Familiar Rural de Santa Catarina a partir do conceito de “rugosidade”, de Milton Santos. Com base em pesquisa bibliográfica, documentos institucionais e dados oficiais, o autor demonstra como a escola preserva a memória da Pedagogia da Alternância e fortalece a agricultura familiar. O estudo conclui que a instituição se consolidou como um espaço de resistência, contribuindo para a permanência da juventude no campo e para o desenvolvimento das comunidades rurais.
No artigo “Retalhos que contam: entrelaçando experiências no ensino de Ciências Humanas com o uso de literatura para crianças”, Gerson Junior Naibo e Janaina Gaby Trevisan apresentam uma experiência pedagógica que integra literatura infantil e ensino de Ciências Humanas em escolas públicas catarinenses. Utilizando o livro A colcha de retalhos e atividades desenvolvidas com estudantes e suas famílias, os autores demonstram que a proposta fortaleceu a memória, o sentimento de pertencimento e a compreensão crítica do espaço vivido. O estudo reforça o potencial da literatura como ferramenta para tornar o ensino mais significativo e aproximar a escola da realidade dos alunos.
Agência Press – Virtual Pictures




