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Ação de Trump nas Américas favorece Putin na Ucrânia, diz historiador

Redação por Redação
10 de janeiro de 2026
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Ação de Trump nas Américas favorece Putin na Ucrânia, diz historiador

A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos (EUA) e as ameaças de Donald Trump contra Colômbia, Groenlândia e México favorecem o avanço militar da Rússia contra a Ucrânia, avalia o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva.

“Os EUA estão muito ocupados com aquilo que o Marco Rubio [secretário do Departamento de Estado dos EUA] chamou, infelizmente, de hemisfério ‘deles’. Então, é possível que isso dê uma autorização tática para a Rússia liquidar de vez o problema ucraniano”, disse.

A Ucrânia sofreu, na última noite, um amplo ataque russo com drones e com o míssil hipersônico Oreshnik, que pode chegar a dez vezes a velocidade do som e não pode ser detectado. Está é a segunda vez que Moscou usa essa arma na Ucrânia.

Para o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o mundo vem inaugurando uma nova ordem mundial onde “é cada um por si” nas relações internacionais.


Casa Branca

EUA se empoderaram após ataque militar à Venezuela, diz historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva.- Foto: Reuters/Proibida reprodução

“Trump se empoderou com o que fez na Venezuela. É muito provável que ele passe a agir em outros territórios, como a Groenlândia. Ele disse também que pode mandar expedições terrestres contra o México. Se o Trump está resolvendo o que ele acha ser o ‘quintal’ dos EUA, então o ‘quintal’ da Rússia também tem que ser organizado”, destacou Silva. 

No final do ano passado, os EUA publicaram documento com a estratégia de segurança nacional reafirmando a “proeminência” de Washington no Hemisfério Ocidental, que engloba as Américas do Sul, Central e do Norte, o que foi interpretado como um recado à China e outros adversários da Casa Branca.

Europa encurralada

O analista militar e de geopolítica Robinson Farinazzo, oficial da reserva da Marinha do Brasil, disse à Agência Brasil que as ambições de Trump com a Groenlândia colocam a Europa em uma posição ainda mais delicada.

“O Trump querendo a Groenlândia, de um lado, e os russos atacando do outro. Com uma arma sofisticada dessa [míssil Oreshnik], eu acho que alguns líderes europeus vão ter que pensar duas vezes quais vão ser as próximas decisões. O grande perdedor, lógico, é a Ucrânia. Mas o segundo maior perdedor nessa guerra é a Europa”, comentou Farinazzo.

O militar brasileiro acrescenta que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não tem equipamentos para interceptar o míssil hipersônico da Rússia. Ao mesmo tempo, a aliança militar estaria em risco com as ameaças do Trump à Groenlândia. 

“A Europa não pode brigar em duas frentes. Se o Trump tomar a Groenlândia à revelia da Europa, acabou a Otan. Além disso, a Otan está dividida porque a Turquia tem ambições no Oriente Médio que contrariam as políticas de muitas lideranças da organização”, acrescentou Farinazzo.

Para o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, o ataque com míssil hipersônico foi um aviso de Putin para a Europa, que tem dificultado um acordo para a guerra na Ucrânia e que estaria por trás do ataque a uma das residências de Putin.


Ukrainian President Volodymyr Zelensky delivers a speech to the nation at the presidential palace.

Volodymyr Zelensky, presidente ucraniano – Foto: Reuters/Proibida reprodução

“A Ucrânia não teria meios de atingir Novgorod [cidade russa], muito menos a residência do Putin ou a base de Murmansk da aviação russa. Isso tudo é feito com assessores militares, principalmente britânicos. E é uma forma de a Europa dizer que está na guerra e que o Trump não pode negociar sozinho com o Putin”, comentou.

Na avaliação do professor da UFRJ, os EUA não devem mais tentar barrar o avanço militar da Rússia na Ucrânia.

“Por outro lado, eles vão tentar deter a Rússia em relação aos Brics ou por meio de retaliações à compra de petróleo russo, como fizeram com a Índia, mas não por causa da Ucrânia, mas para tirar a Rússia do mercado de petróleo”, disse.

Campo de batalha

O professor fluminense acrescenta que a Ucrânia vem se fragilizando a cada dia no campo de batalha, apesar das ações espetaculares que realiza para tentar mostrar que ainda teria “cartas” na manga para usar.

“Entre 20% e 25% do território ucraniano está ocupado pelas tropas russas. A Rússia avançou muito. O mais importante foi que a Rússia tomou o chamado Corredor de Odessa, que é a saída de grãos da Ucrânia, o pulmão da Ucrânia”, disse.

O especialista destaca que as vitórias da Rússia não costumam ser noticiadas. “Há um verdadeiro bloqueio de notícias em relação a isso. Em grande parte, porque essas agências de notícias são americanas, francesas e alemãs. Então eles não noticiam isso”, completou.

O analista militar Robinson Farinazzo pondera que a Rússia vai continuar investindo no campo de batalha porque não confia nos negociadores europeus e norte-americanos, apesar de avaliar que Moscou não consegue uma ação definitiva e rápida para neutralizar Kiev completamente.

“O objetivo russo é neutralizar completamente o exército ucraniano, mas a Rússia não pode fazer avanços rápidos em profundidade, ou em amplitude, porque ela vai sofrer muitas baixas. Os sistemas defensivos ucranianos são bons, então eles apelam para uma guerra de desgaste. Essa guerra ainda pode durar muito tempo”, disse.

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